Depois de dez anos de criação e três "inaugurações", a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás) ainda não tem produção própria.
Idealizada para tornar o País autossuficiente em derivados de sangue - produtos caros e essenciais para tratamento de hemofilia, infecções e doenças autoimunes - , a empresa reúne em seu currículo licitações anuladas por denúncias de irregularidades, erros de projetos e superfaturamento de contratos. O atraso no empreendimento é tamanho que, quando a produção finalmente tiver início, um dos hemoderivados preparados pelo complexo poderá ter uso limitado, em razão da tecnologia ultrapassada.
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| Construída em Goiana(PE), fabrica terá 17 prédio |
Assim como o calendário, o orçamento também foi alterado. O empreendimento, que inicialmente deveria custar R$ 539,731 milhões, agora é calculado em R$ 855,591 milhões (veja abaixo). Os prejuízos provocados pelo atraso nas obras vão além da simples diferença no orçamento. Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o andamento dos serviços observa que os atrasos obrigam o governo a manter a compra de produtos no exterior. Apenas em 2010, segundo a Hemobrás, foram pagos US$ 300 milhões com a importação de hemoderivados. O TCU avalia que o custo teria sido reduzido pela metade se a produção fosse nacional. Sem falar nos tributos.
Obsoleto
Além dos erros, denúncias e atrasos, quando a fábrica abrir, um dos produtos, o Fator VIII plasmático, poderá já estar obsoleto e com uso restrito. Isso porque outro Fator VIII, mais seguro, feito por tecnologia recombinante, está sendo usado e também será produzido no País. "É uma questão importante que, uma hora ou outra, o conselho da Hemobrás terá de se debruçar e discutir" diz Maciel Filho.
O coordenador do Departamento de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde e ex-presidente da Hemobrás, João Paulo Baccará, discorda. Ele garante que o projeto inicial já previa que o fator VIII plasmático, que será produzido por meio de tecnologia transferida pela empresa francesa LFB, seria suficiente para atender 10% da demanda. "E esses 10% sempre serão necessários, porque há pacientes que não se adaptam ao produto recombinante."
Construída em Goiana (PE), a 60 quilômetros do Recife, a fábrica terá 17 prédios, com 48 mil m2 construídos. Desse complexo, foram inauguradas uma câmara fria para a estocagem do plasma - com base no qual são fracionados hemoderivados -, um prédio para geradores de energia e um reservatório.
Maciel Filho diz que o atraso é resultado da combinação de vários fatores. "A empresa começou do zero. Não tinha corpo diretivo, não havia parceiro internacional." Para o TCU, porém, atrasos podem ser atribuídos à condução de processos "sem a devida cautela". A licitação para construção do primeiro bloco foi anulada, por suspeita de irregularidades. Houve problemas na execução de contratos e adaptação de acordos realizados com as empresas.
Alterações
A condução das obras é responsabilidade do consórcio Mendes Júnior. Na época da assinatura do acordo, em 2011, estava prevista a construção de instalações para produzir imunoglobulina liofilizada. A transferência da tecnologia seria feita pela empresa francesa LFB. Meses depois, a primeira mudança: após 8% da execução física medida e paga, o contrato com LFB foi alterado de produção de imunoglobulina liofilizada para líquida. E o projeto teve de ser alterado.
Outra justificativa foi a necessidade de se "tropicalizar" o projeto, preparado pela LFB. A empresa diz ser necessário adequá-lo aos insumos brasileiros. Para o TCU, a justificativa não convence. O termo, afirmam técnicos, deve ser considerado como falha de planejamento. "Desde o início estava previsto o local de execução. Sendo francesa a contratada, natural que fossem consideradas diferenças para a sede da empresa contratada."
Há mais falhas no contrato com a Mendes Júnior. Como o pagamento é mensal, quanto mais tempo dura a obra mais dinheiro a empresa recebe. Atendendo ao TCU, a Hemobrás determinou a mudança das regras, mas há resistência da construtora, que, por sua vez, reduziu o número de funcionários nos canteiros de obras. O orçamento para a construção teve redução de R$ 10,5 milhões por sobrepreços e erro no cálculo de material necessário.




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